O naufrágio do vapor italiano Primavera na ilha da Berlenga (1902)

26-08-2018

O navio a vapor Primavera foi lançado à água a 7 de Novembro de 1878 pelos estaleiros Alexander Stephen and Sons Limited, de Govan, arqueando 2083 toneladas brutas.

A sua primeira vida desenrolou-se sob o nome de Clan Fraser, da Clan Line, sendo registado no porto de Liverpool com o número 1080420.

Em 1895 o Clan Fraser foi vendido à Dene SS Co., de Newcastle, sendo renomeado como Oakdene.

No ano seguinte foi vendido à companhia italiana Tagliavia & Fratelli, sendo renomeado Giacomo e, mais tarde, Primavera.

No dia 17 de Outubro de 1902, o Primavera partiu do porto de Palermo em Itália, com destino a Antuérpia e Roterdão, naquela que viria a ser a sua última viagem.

Com uma tripulação de 25 homens, sob comando do capitão Pierre Corran, transportava uma carga diversificada, constituída por almagre, asfalto, cânhamo, cortiça, chá, e conservas sendo o grosso da mercadoria composto uma grande quantidade de mármore de Carrara - cerca de 2.000 metros cúbicos sob a forma de grandes blocos, pranchas processadas e pequenos paralelepípedos de mármore branco e preto, possivelmente destinados a trabalhos de ornamentação.

No dia 28, por volta das 5 da madrugada e quando o Primavera navegava já a cerca de 14 milhas a norte das Berlengas, um dos fogueiros detectou um intenso odor a queimado no porão da popa, tendo de imediato reportado o facto ao 1º Maquinista de quarto.

Após buscas pelo navio, os mareantes detectaram realmente fogo na carga - um incêndio larvar, muito provavelmente originado pela compressão de fardos de estopa no porão da ré - confirmando o comandante que o fogo alastrara a todo o navio. Pouco depois, a ponte terá cedido e o tabuado do convés ter-se-á igualmente incendiado.

O comandante decidiu então fundear o navio junto da Berlenga, defronte do Carreiro do Mosteiro, o que aconteceu por volta das 06h00. 

Ali chegado, desembarcou na ilha a tripulação e as suas bagagens - 20 caixas e 40 sacos.

O navio ardia com tal intensidade que as chamas eram perfeitamente visíveis da península de Peniche, distante de cerca de 7 milhas. Ainda assim, o Comandante Corran acreditava ser possível dominar o incêndio, pelo que não aceitou a oferta de reboque para Peniche, que lhe foi dirigida. Deslocava-se entretanto para o local, em socorro do Primavera, o vapor Josephine da companhia Hersent.

No entanto, o domínio do incêndio revelou-se impossível, mesmo com o auxílio de embarcações locais munidas de bombas, e o Primavera submergiu por voltas das 17h00, ficando assente no fundo a cerca de 24 m de profundidade. Com a maré baixa, a chaminé do navio sobressaía fora de água cerca de 1 metro.

Por volta das 06h00 de dia 29 seguiu para a Berlenga um contingente da Guarda Fiscal, a bordo do Vapor N.º 1 da Alfândega. Nessa altura ainda se acreditava ser possível salvar parte da carga, com recurso a pessoal e empresa especializada, uma vez que o navio ainda se encontrava inteiro. Tal não viria a acontecer: no dia 4 de Novembro, o comandante Corran seguiu para Lisboa, entregando o navio à Alfândega local, já que as condições meteorológicas faziam crer não ser possível qualquer recuperação da carga, sendo perda total.

Ficou encarregue dos náufragos Marcelino Gonçalves, vice-cônsul francês que também se deslocou às Berlengas na qualidade de comandante do vapor da Alfândega. Segundo as designações e os nomes publicados na edição de 31 de Outubro de 1902 do jornal O Século, a tripulação do Primavera era constituída pelos seguintes elementos:

Comandante: Pierre Corran

Imediato: Filipe Gallero

2º Oficial: Luigi Giacoble

1º Maquinista: Gaetano Fassini

2º Maquinista: Arturo Morasca

3º Maquinista: Michele Matrocia

Carpinteiros: Antonino Cioffi e Mori Santi

Marinheiros: Giuzeseppe Cotania, Giovanni Calvo, Salvatore Demeglio, Luigi Debernardo, Borrello Francesco

Moços: Michel Cosenzu e Luigi D'Esposito

Operários:Ginseppo Borrello, Francesco Corieri

e ainda: Francesco Mazzini, Paulo Pisani, Giovanni Corrão, Stefano Esposito, Letterio Arena, Domenico Lafornia, Santi Balestriero e Antonio Pabrulo.

Todos, excepto o comandante, embarcaram em Lisboa a 1 de Novembro de 1902 no vapor alemão Kaiser, com destino a Nápoles e Palermo.

Na década de 50, o Primavera foi extensivamente "salvado", sendo desmantelado com recurso a explosivos pela empresa Somar, Lda - os rebentamentos foram tão fortes que os concessionários da Pousada instalada no forte de São João Baptista se queixaram à capitania de Peniche destes porem em perigo a integridade da fortaleza. 

Na "Ribeira Velha" - onde hoje atraca o Cabo Avelar Pessoa que transporta turistas para a Berlenga e antes cais de descarga do peixe proveniente da pesca, maioritariamente sardinha - podemos ainda ver os "cabeços" de amarração do Primavera, oferecidos ao porto pelo proprietário da Somar, o Sr. Joaquim Pinto.

O naufrágio encontra-se actualmente alinhado no sentido sueste-noroeste, estando balizado mais a sul pela presença de uma âncora, que lhe poderá, ou não pertencer.

O destroço apresenta-se totalmente fragmentado e destruído, sendo apenas visiveis, a oeste, parte do cavername por sobre uma superfície rochosa e, a leste, já por sobre uma superfície arenosa, uma dezena de grandes blocos em pedra mármore, de forma quadrangular. 

Mármore, mas de Carrara - afinal, naufrágio fino é outra coisa.