O naufrágio do Spindrift, o navio das chitas, na ilha de São Jorge, Açores (1870)

26-08-2018

Dezembro de 1870 trouxe aos Açores não só uma inesperada riqueza como também mortes e motins populares. Saiba o que levou os jorgenses a uma orgia de pilhagem e criminalidade.

A barca de três mastros em ferro Spindrift foi lançada a 28 de Maio de 1870 pelos estaleiros Bowdler, Chaffer & Co., um dos primeiros fabricantes navais a estabelecer-se em Wallasey Pool, a bacia do rio Mersey que separava Wallasey de Birkenhead, defronte a Liverpool. 

Perante a esbelteza do casco todos convidados do bota-abaixo concordavam: a Spindrift era o navio mais bonito que alguma vez fora lançada ao Mersey. 

O nome fora-lhe dado por Miss Taylor, uma parente dos proprietários da firma Messrs. J. Glyn & Son, de Liverpool, amigos dos proprietários da nova barca de 350 toneladas, Messrs. Holden & Gann, de Whitstable. 

E porquê Spindrift? Porque um ano antes, os proprietários desta barca tinham sido os arrematadores dos salvados do naufrágio do mais veloz clipper da China Spindrift, construído em 1867 e naufragado em 1869 no canal da Mancha, no cabo Dungeness. Como veremos mais adiante, a escolha foi péssima. 

Entre Junho e Novembro, a Spindrift fez duas viagens redondas até ao Ceará, Brasil.

A 26 de Novembro de 1870, a Spindrift parte de Liverpool para Tabasco, no México, sob o comando de Alfred S. Ikes, naquela que viria a ser a sua última viagem.

Dez dias depois, já na madrugada do dia 6 de Dezembro, António de Matos, morador na Fajã de Cima, ilha de São Jorge, acorda com umas pancadas na porta da sua casa.

Estando "a noite escuríssima, invernosa em chuva e ventania", António deve ter tido algum receio em abrir a porta. Quando se decidiu a fazê-lo, deparou com dois estrangeiros, em "lastimoso estado" que, falando inglês, não se conseguiam fazer entender.

António de Matos achou por bem encaminhá-los para a casa de João Teixeira Luis que, tendo estado vários anos nos Estados Unidos, perceberia talvez a língua que falavam. E tinha razão: foi este emigrante quem conseguiu decifrar o mistério relativo àqueles dois homens aparecidos a meio da noite numa ilha perdida no meio do Atlântico: o inglês e o irlandês eram náufragos, os dois únicos sobreviventes da tripulação de nove homens da Spindrift.

De acordo com os sobreviventes, a barca, que "tinha a bordo um importante carregamento de tecidos e mercearias", aproximara-se perigosamente da costa da ilha de São Jorge, sem que tripulação de tal desse conta. Muita cerração, mau tempo e divergências a bordo entre os oficiais, "proveniente da embriaguez dos mesmos", deram lugar à tragédia: a cerca de 300 metros a leste da lagoa da Caldeira de Santo Cristo, a Spindrift tocara "na baixa do Meio, rodando para o sítio da Eirinha", encalhando e abrindo-se "em duas em coisa de minutos".

Os dois sobreviventes foram arrojados à costa onde, "com essa fleuma que caracteriza os nossos fieis aliados" (ou talvez sob o efeito anestésico do brandy ingerido..) se deixaram dormir sobre os pedregulhos da costa. Ao acordarem, e ignorando onde se achavam, e para onde se dirigiriam, "a fim de obter algum socorro de vestuário e de alimentação, viram por sua fortuna, tremeluzir no alto, ao longe, uma luz". Puseram-se a caminho em direcção ao alto da falésia onde chegaram, através de precipícios - e foi assim que bateram à porta de António Matos.

Quando o dia clareou os destroços do navio foram vistos, "debatendo-se nas ondas". Pela manhã estava "o litoral cheio de fardos de chita, de uma estamparia muito arregalada e extravagante, algodões, paninho, cotins, pano fino, guarda-sóis, lenços, carros de linha, loiça, garrafões, conservas, temperos e muitos outros objectos". Entretanto, alguns dos cadáveres deram à costa na preia-mar, sendo sepultados num campo chamado Relvão, de Manuel Joaquim.

Acorreram à praia primeiro os moradores da beira mar, depois os que habitavam a parte média da escarpa, e por fim de todos os pontos da ilha, "onde a noticia do sinistro chegou com velocidade telegraphica".

Mas não era só curiosidade que o que atraía a população ao local do naufrágio da Spindrift

Sem "sombra de caridade, de magoa, de compaixão n'aquelles rostos assombrados pela cobiça, iluminados pelo delirio da rapina", os jorgenses formaram uma multidão que fervilhava indistintamente na rebentação do mar.

Contra tudo isto se insurgiu uma testemunha ocular do sucedido. Escrevendo no jornal O Fayalense, invectivou a já costumeira rapacidade dos seus conterrâneos em ocasiões de naufrágio - afinal, o mesmo fenómeno se verificara aquando do naufrágio da Rosélie, que dera à costa da Calheta a 26 de Janeiro de 1867, mesmo defronte da igreja da vila, tendo a população enterrado nos quintais grande parte do mogno que o navio francês transportava.

Relatava a testemunha que todo "aquele bando de homens, de mulheres, e creanças, alagados, seminus, em cynica promiscuidade de sexos e edades, agarrava-se aos fardos de fazenda, que se desmanchavam ao contacto das pedras, envolvendo-se nas peças de chita que boiavam á tona d'agua, disputando-se tenazmente um farrapo cortado ao mesmo tempo por muitas facas, e subtraido aos que o cortavam por outros que lhes espreitavam a operação, acotovelando-se, empurrandos-se n'um tiroteio mutuo de injurias, gargalhadas, risos e emprecações, entregues, corpo e alma, a uma rapina nojenta, obscena, inconcebível".

A cobiça causou até mortes - por exemplo, uma rapariga da Ribeira da Areia que se aproximou de "um embrulho de panos e fazendas" foi arrebatada pelas ondas, ondas que também envolveram uma irmã dela que pretendeu acudir-lhe. Houve igualmente mãos mutiladas, pernas e braços golpeados, calças e saias cortadas por equívoco, "lenços bifados da cabeça do dono enquanto este disputava ao mar um farrapo, que não valia metade do lenço".

Na ânsia do saque, as peças de pano eram atadas a cordas que depois eram puxadas pela falésia acima só para serem roubadas pelos retardatários. 

Ao que parece, depois da rapina á beira mar, veio a rapina em terra: "os ultimos concorrentes achando poucos despojos no campo da batalha, cahiram a passo de carga, sobre as bagagens dos primeiros possuidores, fazendo n'ellas perfeito alimpamento". 

Mas, numa justiça poética, "os que assim empolgavam com pouco trabalho o que outros haviam subtrahido a custo, eram depois despojados de tudo por terceiro bando que, occulto nas quebradas e desfiladeiros da encosta, cahia d'improviso sobre os segundos ratoneiros".

Entretanto, em Inglaterra, armadores familiares da tripulação de nada sabiam. Só a 11 de Janeiro de 1871 será publicado no Shipping and Mercantile Gazette um despacho provindo da ilha de São Miguel.

O conteúdo é telegráfico: o navio dera à costa na Caldeira de Santo Cristo; parte da carga tinha-se perdido estando a outra parte salvada; o capitão, o imediato e três marinheiros tinham morrido, só escapando dois homens, os aprendizes.

Um destes aprendizes, Newing, regressa a Liverpool, onde chega a 15 de Janeiro de 1871. Narra ao jornal Glasgow Herald a sua versão dos acontecimentos, omitindo desta vez quaisquer referências a embriaguez ou a disputas alimentadas pelo álcool. Diz apenas que logo à saída de Liverpool tinham encontrado ventos de sudeste muito fortes, tendo sido obrigados a caçar bastante as velas praticamente todo o tempo.

Que a 5 de Dezembro, o capitão Ikes observara o sol ao meio dia e lhes dissera para manterem boa vigia, por estarem perto dos Açores.

Que entre as três e as quatro da tarde, tinham havido vista da ilha do Faial, com o vento a soprar forte ainda de sudeste.

Que às oito da noite do dia 5, o vento lhes tinha partido o pau da giba do gurupés, pelo que o capitão fizera atravessar a barca ao vento, enquanto se reparavam os estragos.

Que terminadas as reparações, o imediato e a equipa do seu quarto tinham descido aos seus camarotes, ficando o capitão, o segundo de navegação e mais dois marinheiros no convés.

Que meia hora depois, o navio embatera numas rochas, a meia milha da costa.

Que a tripulação tentara lançar os escaleres à água, mas que o mar os levara num ápice.

Que a barca não durara mais que uma hora, desfazendo-se em pedaços.

Que ele, Newing, lançara mão a uma bóia salva-vidas, levando uma hora a dar à costa.

Que o outro aprendiz sobrevivente vira a restante tripulação afogar-se, salvando-se agarrado a um pedaço de verga que flutuava. 

Finalmente, que vira estarem deveras mutilados os corpos que tinham dado à costa, excepção feita à do capitão - pormenor que o levara a pensar que este dera à costa ainda vivo.

Newing nada referiu também sobre o destino da carga ou sobre as cenas de pilhagem descontrolada.

A 25 de Abril de 1871, a Shipping and Mercantile Gazette relatava que a 5 e 8 do mesmo mês, os salvados da Spindrift tinha sido arrematados na Alfândega de Angra do Heroísmo e que uma considerável quantidade de ferro em barra, provavelmente do lastro, estava ainda afundada a 1.5 metros de profundidade, prevendo-se que fosse inspecionada assim que o tempo melhorasse. Terminam aqui as notícias oficiais e começa a lenda da Spindrift.

Para os jorgenses, presos à miséria das terras escarpadas e afastados dos grandes circuitos comerciais do século XIX, o naufrágio do Spindrift foi uma inesperada prenda de Natal, um presente que veio do mar: afinal, durante largos anos, grande parte da população da ilha vestiu-se à conta daquilo que o povo passou a denominar o "navio das chitas".