O afundamento do l'Océan e do Redoutable ou de como o Marquês de Pombal se esgueirou por entre a França e a Inglaterra (1759)

26-08-2018

Descubra como em 1759 o Marquês de Pombal se esgueirou por entre a legítima indignação da França e o despudorado cinismo da Inglaterra, um caso bicudo e um naufrágio onde hoje em dia pode mergulhar em apneia, no Algarve.

"(...) Eu fiz romper vivo o duque de Aveiro por ter atentado contra a vida do rei, e poderei muito bem fazer enforcar um dos vossos capitães por ter roubado a sua efígie em desprezo da lei.

Há tempos em que nas monarquias um só homem pode muito.

Vós não ignorais que Cromwel, na qualidade de Protector da República inglesa, fez cortar a cabeça a Pantaleão de Sá, irmão de João Rodrigues de Sá, embaixador de Portugal na Inglaterra, por se ter prestado a um tumulto; e eu, sem ser Cromwel, estou em estado de imitar o seu exemplo na qualidade de Ministro Protector de Portugal.

Fazei, por tanto, o que deveis, se não quereis que eu faça o que posso."

Palavras duras, as do Marquês de Pombal,para se ter com um aliado. A situação assim o exigia, contudo [ver a carta de Pombal, na íntegra, no final deste texto].

O l'Océan, um navio de guerra francês, encalhado propositadamente pela tripulação junto à protecção neutral da fortaleza portuguesa de São Luís de Almadena, Boca do Rio, Algarve, fora bombardeado pelos navios ingleses que o perseguiam, a 19 de Agosto de 1759.

O mesmo acontecera com um outro navio da mesma frota francesa, o Redoutable, igualmente a abrasado quando encalhado na praia do Zavial, naquela que ficaria a ser conhecida como a Batalha de Lagos.


A batalha de Lagos

Inserida no contexto da Guerra dos Sete Anos, da qual a Inglaterra sairia como a maior potência naval da altura, a Batalha de Lagos surgiu como acção acessória da tentativa de Luís XV em invadir a Inglaterra.

O plano era simples: o exército francês, acampado em Vannes, no sudeste da Bretanha, seria transportado em barcaças a partir de Quiberon, bracaças essas escoltadas por uma frota composta por 21 navios de guerra da esquadra atlântica de Brest, sob o comando de Hubert de Conflans e outros 12 da esquadra mediterrânica de Toulon, sob o comando do almirante de la Clue.

Mas, para de la Clue, havia um problema incontornável: como chegar a Brest sem ser detido pela frota inglesa que bloqueava Gibraltar?

A 5 de Agosto, de la Clue deixou Toulon, a 17 foi avistado pelos navios do almirante Edward Boscawen, surto em Gibraltar. Os franceses conseguem passar o estreito mas, no dia seguinte, são alcançados pela frota inglesa que, na pressa de os atacar, se dividira em duas.

Também em duas se dividira a francesa, com cinco dos seus navios a procurar refúgio em Cádiz durante a madrugada do dia 18 - as versões aqui contradizem-se: umas dizem que estes navios fugiram, outras que estes eram os navios mais ronceiros, logo mais lentos que os outros.

Estes, os mais veleiros, atrasados durante as manobras nocturnas em que se tentaram juntar aos cinco que se tinham abrigado em Espanha, foram atacados durante a tarde do mesmo dia. Enquanto um navio francês de 74 canhões, o Centaur, era capturado, após batalha, dois continuaram rumo para oeste e escaparam.

Os outros quatro procuraram as costas de Portugal - o Téméraire, o Modeste, o l'Océan e o Redoutable.

Se os dois primeiros foram capturados, os dois últimos foram destruídos praticamente na praia, nas costas algarvias. Da tripulação do l'Océan, salva-se a maior parte dos homens, havendo a registar cerca de 25 mortos e 40 feridos, entre os quais se contava o almirante De la Clue que, gravemente atingido nas duas pernas, deu também ele em terra portuguesa, terra essa que ele ingenuamente supusera vir a ser respeitada pelos ingleses como neutral.

E é exactamente essa violação da "sagrada" neutralidade das águas portuguesas que tanto indigna o Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

Mas será essa indignação genuína? Vejamos o que nos revela a documentação muito secreta e confidencial trocada entre o embaixador inglês em Lisboa e o primeiro ministro Pitt.

O dia seguinte à batalha deu azo a grandes movimentações diplomáticas. O cônsul inglês em Faro, Thomas Lampiére recebia a primeira descrição da batalha, descrição essa prontamente enviada para o cônsul em Lisboa, Edward Hay.

O embaixador comunica em primeira mão ao Governo inglês o sucesso da batalha, advertindo-o de que Portugal não deixaria de se sentir agravado pela quebra da sua neutralidade e, fruto de uma bem oleada rede de espionagem, acrescenta uma cópia do relatório da batalha que de la Clue teria enviado ao embaixador francês em Lisboa, Conde de Merle antes de morrer, relatório esse onde são citadas as perdas sofridas em navios e homens e é descrita a sua indignação pela violação da neutralidade portuguesa.

Em resposta a Hay, Pitt sustenta a tese de que a violação da neutralidade portuguesa por parte de Boscawen se devera ao "calor da batalha". Sugere então várias desculpas e paliativos a apresentar às autoridades portuguesas, frisando contudo, que "em circunstâncias algumas permitirá o Governo de Sua Majestade qualquer espécie de repreensão a Boscawen ou restituirá qualquer navio perdido pelos franceses; fora isto, o Rei Jorge II dará todas as satisfações razoáveis ao Rei José, incluindo, talvez, o envio de uma missão extraordinária para apresentação de justificações e desculpas".

Pitt pede ainda mais esclarecimentos, "detalhados e imparciais", da batalha, pedido que Hay reencaminha, a 26 de Setembro, para Lampiére.

A 2 de Outubro, Hay volta a escrever a Pitt informando-o das conversações que mantivera sobre o assunto com o Rei D. José e os seus ministros. Reporta que D. Luís da Cunha e Pombal tinham tido reacções bastante simpatéticas, achando que estes ministros se contentariam com um mero pedido de desculpas, sugerindo que os oficiais navais britânicos se teriam deixado levar por ressentimentos próprios. Acusa ainda o Governador do Algarve, D. Rodrigo de Noronha, de ser do partido francês.

A 28 de Novembro, o Primeiro Ministro inglês comunica que enviará a Lisboa o Visconde de Kinnoul, irmão do próprio embaixador numa missão especial para dar a D. José "a mais pública e ostensiva satisfação possível sobre o caso de Lagos". Até à sua chegada, Hay deverá coibir-se de tocar no assunto,dando contudo mostras da grande estima que o Rei Jorge tem por D. José.

A 7 de Março de 1760, chega o Visconde a Lisboa, comunicando de imediato a Pitt que tem encontrado reacções favoráveis à sua vinda a Portugal.

E o Primeiro Ministro continua bem informado: a 13 de Março chega-lhe às mãos uma cópia da carta que o enviado português à corte francesa, Pedro da Costa Salema, enviara a D. Luís da Cunha, relatando a sua entrevista confidencial com Étienne de Choiseuil, Secretário dos Negócios Estrangeiros francês, onde este lhe fizera parte do grande ressentimento da corte francesa pela atitude pró-britânica dos portugueses, como tão bem se fizera sentir no caso de Lagos, e ameaçando retirar o seu embaixador de Lisboa, caso não houvesse uma satisfação, deixando no ar a ameaça de uma intervenção militar espanhola.

A 21 de Março, Lord Kinnoul, embaixador extraordinário da Grã-Bretanha, é recebido pelo rei D. José em audiência pública. Em discurso, oferece os mais profundos lamentos de parte do Rei Jorge II pelo que sucedera em Lagos, no calor da perseguição, assegurando ao Rei português a expressão dos sentimentos invioláveis de profunda amizade e desolação por parte do Rei inglês, que se congratula igualmente pelo bom desfecho do caso dos Távoras e pela expulsão dos Jesuítas.

Em carta a Pitt, datada de 29 de Março, Kinoull considera que o assunto de Lagos se encontra ultrapassado com o pedido de desculpas apresentado, tanto mais que Pombal não esperava, confidencialmente, qualquer tipo de compensação - apesar de a exigir publicamente - estando agora com vagar para se dedicar aos assuntos relativos ao comércio inglês.

No entanto, os franceses não desistem, ameaçando Portugal de incitar a Espanha a invadir o Amazonas através da zona de Cayenne. Pombal conversa com Kinoull sobre a ameaça e este encaminha a decisão a tomar para Pitt.

O Primeiro-ministro comunica-lhe a 30 de Maio que o Rei Jorge II irá, muito enfaticamente, estar do lado de Portugal no caso de haver quebra das tréguas com a França, não podendo, contudo, especificar com que meios navais e militares lhe poderia socorrer. No entretanto, Portugal deverá colocar as suas forças em estado da máxima prontidão, devendo evadir, da forma mais polida possível, a todo e qualquer pedido francês para a restituição dos navios perdidos em Lagos.

E Pombal assim faz. Entre 1760 e 1761, por mais que a França pressione, o caso dos navios morrerá de morte natural, morte essa apressada pelo regresso de Merle a França e pelo que acontecerá a Boscawen que acabará, não enforcado ou repreendido, mas sim promovido a general de fuzileiros, com um salário anual de 3000 libras, salário que nunca gozará: a 10 de Janeiro de 1761, um mês depois, morre de uma febre malsã, com cinquenta anos e uma cidade do New Hampshire com o seu nome.

O sítio do naufrágio permaneceu sempre na memória local. Em meados dos anos 70 do século XX, o sítio do naufrágio foi pilhado, sendo muitos dos canhões em bronze do l´Ocean derretidos por sucateiros.

Em 1984, foi objecto da primeira intervenção arqueológica subaquática em Portugal, realizada por Francisco Alves, então director do Museu Nacional de Arqueologia, arqueólogo que idealizou então um itinerário descritivo pelo sítio do naufrágio, permitindo aos mergulhadores fazer o percurso subaquático por entre uma âncora de misericórdia, alguns canhões em ferro e um cadernal associado à alagem do ferro de amura.

Do espólio recuperado contam-se canhões em bronze, na sua maioria reduzidos a fragmentos fundidos e a escórias resultantes do violento incêndio que consumiu o l´Ocean; âncoras; punhos de armas brancas; balas de mosquete; utensílios da cozinha de bordo; fragmentos de cabo de cânhamo; bigotas; cadernais em bronze e tabuado correspondente a fragmento de coberta do navio.

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Adenda

"Carta do Marquês de Pombal ao Ministro dos Negócios Estrangeiros da Inglaterra: por causa de terem sido queimados debaixo das nossas fortalezas da costa do Algarve, alguns navios franceses" por Pombal, Marquês de, 1699-1782 BN, H.G. 25068 V.0

"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor

Rogo a V. Exa. Que me não faça lembrar as condescendências que o nosso Gabinete tem tido para com o seu. Elas são tais, que eu não sei se alguma Potência as haja tido semelhante para com outra.

É justo que este ascendente acabe por uma vez, e que Portugal faça ver a toda a Europa que tem sacudido o jugo de uma dominação estrangeira.

Portugal não pode provar isto melhor que obrigando o vosso Governo a dar-lhe uma satisfação, que por nenhum direito lhe deve negar. A França olharia para Portugal como para um Estado em fraqueza, se não pudesse obrigar-vos a dar razão da ofensa que lhe fizestes, vendo queimar defronte dos nossos portos, navios que deveriam ter ali toda a segurança.

Vós não fazieis ainda figura alguma na Europa, quando a nossa Potência era a mais respeitável.

A vossa ilha não formava mais do que um ponto na Carta ao mesmo tempo que Portugal a enchia com o seu nome. Nós dominávamos a Ásia, África e América, quando vós domináveis sómente em uma ilha da Europa.

A vossa Potência era do número daquelas que não podiam aspirar a mais do que à segunda ordem; e pelos meios que nós vos temos dado, a terdes elevado à primeira.

Esta impotência física vos inabilitava para estenderdes os vossos domínios fora da vossa ilha; porque, para fazer conquistas, precisáveis dum grande exército; mas para ter um grande exército é necessário ter meios para lhe pagar, e vós não o tínheis. A moeda de contado vos faltava. Os que calcularam sobre as vossas riquezas, acharam que não tínheis com que sustentar seis regimentos. O mesmo mar, que pode olhar-se como vosso elemento, não vos oferecia maiores vantagens; com muito custo poderíeis apenas equipar vinte navios de guerra.

Há cincoenta anos, porém, a esta parte, tendes tirado de Portugal mais de mil e quinhentos milhões, soma enorme de que a História não fornece exemplo que nação alguma do mundo tenha enriquecido a outra de um modo semelhante. O modo de adquirirdes estes tesouros vos foi ainda mais vantajoso do que os tesouros mesmos. Pelas artes é que a Inglaterra consegui fazer-se senhora das nossas minas. Ela nos despeja regularmente todos os anos do seu produto.

Passado um mês depois da chegada das nossas frotas do Brasil, não fica em Portugal uma só peça de oiro; tudo tem passado para aumentar a sua riqueza numerária. A maior parte dos pagamentos do Banco são feitos com o nosso oiro. Por uma estupidez de que também não há exemplo na História Universal do mundo económico, nós vos demos a faculdade de nos vestirdes e de nos fornecerdes todos os objectos de luxo, que não é pouco considerável. Nós damos de que viver a quinhentos mil vassalos do rei Jorge; população esta que subsiste à nossa custa na capital da Inglaterra. Os vossos campos são quem nos sustenta. Vós substituístes os vossos trabalhos aos nossos; se antigamente vos fornecíamos o trigo, vós sois hoje quem no-lo fornece. Vós tendes roteado os vossos campos, nós deixamos os nossos em baldios.

Mas se vos temos elevado a esse ponto de grandeza, na nossa mão está o precipitar-vos no nada de que vos arrancámos. Nós podemos melhor passar sem vós, do que vós sem nós. Basta uma só lei para destruir a vossa Potência, ou pelo menos para enfraquecer o vosso Império. Não precisamos mais do que proibir, com pena de morte, a saída do nosso oiro, para ele não sair jamais. Talvez respondereis a isto que apesar da proibição, sairá mesmo do modo como sempre tem saído, porque os vossos navios de guerra têm o privilégio de não serem visitados na sua partida e em consequência do dito privilégio transportarão todo o nosso oiro; mas não vos enganeis com isto.

Eu fiz romper vivo o duque de Aveiro por ter atentado contra a vida do rei, e poderei muito bem fazer enforcar um dos vossos capitães por ter roubado a sua efígie em desprezo da lei. Há tempos em que nas monarquias um só homem pode muito. Vós não ignorais que Cromwel, na qualidade de Protector da República inglesa, fez cortar a cabeça a Pantaleão de Sá, irmão de João Rodrigues de Sá, embaixador de Portugal na Inglaterra, por se ter prestado a um tumulto; e eu, sem ser Cromwel, estou em estado de imitar o seu exemplo na qualidade de Ministro Protector de Portugal.

Fazei, por tanto, o que deveis, se não quereis que eu faça o que posso.

Que seria da Grã-Bretanha se por uma vez lhe cortasse este manancial das riquezas da América?

Como pagaria à imensa tropa de terra e a grande armada do mar?

Como daria ela ao seu soberano os meios de viver com o esplendor dum grande rei?

Donde tiraria os grandes subsídios que paga às Potências estrangeiras para escorar e firmar a sua?

Como viveria um milhão de vassalos ingleses, se se acabasse para sempre a mão de obra de que tiram o seu sustento?

Em que estado de pobreza não cairia todo o reino, se este único recurso lhe faltasse?

Basta que Portugal rejeite os seus grãos (quero dizer, o seu trigo), para que metade da Inglaterra morra de fome.

Direis que não muda com facilidade a ordem das coisas, e que um sistema há muito estabelecido não pode transtornar-se em um momento. Dizeis muito bem; mas eu direi ainda melhor.

O rodar do tempo é que pode trazer esta reforma.

Eu estabelecerei um plano preliminar de comércio, que se encaminhará ao mesmo objecto. Há muito tempo que a França nos estende os braços para que recebamos as suas manufacturas de lã. Na nossa mão está aceitarmos as suas ofertas, o que sem dúvida aniquilará as vossas. A Berbéria, abundante de trigos, os fornece a melhor mercado que os vossos. Então vereis com a maior dor um dos principais ramos da vossa marinha ficar inteiramente extinto. Vós sois muito versados no Ministério, e não ignorais que isto é um viveiro de oficiais marinheiros de que a marinha real se serve em tempo de guerra; e com isto é que tendes elevado a vossa Potência.

A satisfação que vos pedimos é conforme ao direito das gentes.

Todos os dias acontece haver oficiais do mar que, por zelo ou inconsideração, fazem aquilo que não devem.

Ao Governo cumpre puni-los e fazer a reparação ao Estado que eles ofenderam.

Todos sabem que semelhantes reparações o não tornam desprezível.

A nação que se presta ao que é justo, adquire a melhor opinião; e da opinião é que depende sempre a potência do Estado.

Marquês de Pombal, Conde de Oeiras"