Naufraga em Sesimbra a barca "Chanticleer" (1876)

26-09-2018

Entre 10 e 13 de Novembro de 1876, o Atlântico oriental foi fustigado por um temporal medonho. 

O mar enraivecido causou sinistros marítimos desde a Madeira - onde deu à costa a barca alemã "Fearnot", na praia, por se lhe terem rebentado as amarras, morrendo afogado um tripulante - até à costa portuguesa, onde deu igualmente à costa a barca norueguesa "Chanticleer", no cabo de Ares, em Sesimbra - hoje em dia um conhecido local de mergulho, a baía da Armação.

A "Chanticleer" zarpara de Viborg, na Dinamarca, para Sète, França, carregada com madeira, sob o comando do capitão Blessing, da praça de Bergen.

"O navio vinha com água aberta e sem mantimentos. Havia dois dias que os tripulantes não comiam. O mar era de vaga alterosa e o vento soprava rijo" impelindo o navio de encontro à costa portuguesa.

"No cabo da Arêa, meia légua ao sul de Cezimbra", o temporal "açoutava o oceano com fúria insana e tornava inacessível a costa em todos os pontos".

"A tripulação, já sem forças para lutar por mais tempo, sentia o navio a submergir-se. De longe viam-se aqueles dez homens numa agonia enorme a suplicar o socorro do céu, por julgarem impossível o dos homens."

A encosta alcantilada tornava impossível a salvação dos que em breve iriam dar à costa - só quem conhece "o sitio onde o navio veio à praia pode imaginar o perigo em que aquella desgraçada tripulação se achou".

Pelas 9 horas da manhã do dia 12 de Novembro de 1876, a barca deu efectivamente à costa, nos rochedos defronte ao cabo de Ares. 

O capitão e mais três tripulantes arremessaram-se às ondas. A bordo ficavam ainda seis infelizes, "inteiramente abatidos pela fome e pela fadiga, quase nus".

O primeiro dos que havia acompanhado o seu capitão, o cozinheiro, não conseguiu vencer a fúria das ondas. 

"O capitão lutava ainda, rasgadas as carnes e o fato pelas pontas das rochas".

No alto de um rochedo encarpado, que se ergue a prumo por entre as águas, estava "um pobre pastor, José Vitorino".

Vitorino "deixou-se escorregar de ponta em ponta, de cavidade em cavidade e baixou como um ser fantástico ao amago da voragem. Na ponta da última pedra formou o pulo, deitou-se às águas, nadando para o náufrago, agarrando-o tendo seguido para as cavidades da rocha".

O capitão, que perdera já os sentidos, "tinha o corpo crivado de feridas e o fato todo despedaçado". 

José Vitorino amarrou-lhe os pés com a sua cinta, "mas agora era preciso subi-lo para o alto do penhasco". 

Dois pescadores, António Lopes e o Jerónimo António, apareceram a ajudar. 

"Os três pesaram o corpo inerte do náufrago e fizeram uma ascensão de gigantes, por entre a eriçada fraga. Lá em cima, vestiram com a sua roupa o capitão e José Vitorino que uma segunda vez lhe dera a vida, deu-lhe todos os extremos da sua dedicação sublime."

"Os outros dois marinheiros, que se tinham lançado ao mar com o capitão, lutavam também com as ondas e a morte, quando porém, por sua vez, lhes apareceu um anjo salvador. Era o pescador António Francisco, que não quis, que não pode deixar de mostrar que aqueles nobres heroísmos são partilha de todos os pescadores da costa de Sesimbra."

Quanto aos náufragos ainda a bordo da "Chanticleer", as suas agruras ainda não tinham terminado.

"Por entre os penhascos da margem corriam a presenciar aquela aflição, procurando em vão acudir-lhe, grupos de pescadores. Se eles pudessem ao menos lançar um cabo aqueles desgraçados! Mas a distância era longa e não havia força de braço que a vencesse. Lembraram-se dum meio: atirar um cordel amarrado a uma pedra; tentaram-no repetidas vezes, mas a pedra impelida pela força do vento caía na água; não chegava a bordo e o navio ia-se embebendo no abismo."

"Então chegou a vez de fazer a sua tentativa um dos valentes daquelas companhas. Era Manuel da Silva, "o Matuto", já experimentado em audácias semelhantes. 

Manuel tomou a pedra, fixou o alvo, ergueu o braço e arremessou o projéctil com o maior impulso da sua força muscular e um grito de alegria saiu de todas as bocas; a pedra enfim caíra a bordo."

"Os aflitos náufragos agarraram-na com sofreguidão e amarraram um cabo ao cordel, que foi logo alado de terra pelos pescadores. Estava estabelecido o vai-vem. Os seis desgraçados agarraram-se a ele na ansia de quem salva a vida na crise suprema e partem de bordo, sulcando as vagas. Mas já quase chegados aos penedos da margem, o navio afunda-se e o vai-vem perde o apoio de bordo. Novo e iminente perigo."

"Então o «Matuto» tocado por um febril entusiasmo que produz os grandes heroísmos, atira-se ao mar. Nada, braceja fortemente e consegue segurar o primeiro dos seis homens, nadando com ele para terra e rebocando os demais. Mas a luta era superior às forças e à coragem daquele Hercules. Iam então morrer todos os sete ali a poucos palmos de salvamento, sem que nada pudesse valer-lhes? Não. As acções generosas criam nobres estímulos."

"Outro bravo das companhas da costa, João Gomes, "o Casado", atira "o corpo para cima das montanhas líquidas, no dorso das quais flutuavam já quase mortos os sete infelizes. Conseguindo agarrar valentemente o primeiro daquela enfiada humana, pode, ao fim de alguns minutos, firmar o pé em terra e pô-los a todos a salvo."

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