O ano em que a Guerra Civil Norte-Americana chegou à ilha Terceira (1864).

26-08-2018

Em 1864, um navio naufraga misteriosamente nos Açores. Século e meio depois, uma conversa de circunstânica mantida num elevador no Texas lança luz sobre um episódio esquecido da guerra civil norte-americana

"Sinistro - Sábbado 5 do corrente, pelo meio dia, pouco mais ou menos, aproximou-se deste porto o vapor inglez "Runher", de 343 tonelladas, capitão E. Courtenay, com 51 pessoas de tripulação, com carga de víveres, proveniente de Londres, com destino para as Bermudas, trazendo 4 dias de viagem.

Ao entrar no porto, seguindo a toda a força, passou entre os navios ancorados e tomando um bordo bastante à terra encalhou junto ao cáes da alfandega, a bem pouca distancia.

O commandante, a cuja imprudencia só se deve tal sinistro, fez esforços para recuar o navio, mas foram baldados. O navio era a primeira viagem que fazia.

O commandante precipitou-se, porque se tivesse esperado o pratico, teria fundeado sem perigo algum junto ao outro vapor que se achava no porto.

São sempre africanadas que custam caro aos donos dos navios e que podem desacreditar o porto."

Assim noticiava o jornal Angrense, na sua edição de 7 de Novembro de 1864, o naufrágio de um barco a vapor no interior do porto de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira - um facto que seria mais tarde confirmado pelo Boletim Oficial do Governo, no seu Mappa Geral dos Naufrágios Occoridos na Costa Portuguesa.

Era tudo o que havia a saber sobre o navio e era exactamente esse tudo - que era muito pouco - que era estranho. 

Navio algum naufraga assim, na sua viagem inaugural e parte pela história adentro sem deixar mais rasto alguma da sua trajectória no mundo. Algo de estranho se passara, certamente.

Verificados os anuários da Lloyds, constatámos que a seguradora nem sequer tinha registos do navio - o caso deixava de ser estranho e passava ser surreal.

Depois de procurarmos, debalde, mais informações sobre o navio ficámos com o Runher a pairar no nosso subconsciente, na certeza absoluta de que algo de muito peculiar se tinha passado naquela "africanada em mares açoreanos".

O mistério, porque era realmente de um mistério que se tratava, só se viria a resolver no local mais improvável de todos: no interior do elevador de um hotel de Corpus Christi, no Texas.

Primeiro, a data.

A data era relevante.

1864.

Quatro anos antes tinham-se iniciado acontecimentos que iriam modificar profundamente a história de um país do Novo Mundo, com repercussões presentes e futuras à escala mundial. Com efeito, em 1860, vários estados do Sul dos Estados Unidos tinham proclamado a sua independência, criando efectivamente um novo país: os Estados Confederados da América.

Para este território rebelde foi nomeado um presidente, Jefferson Davies, sem que houvesse da parte do governo federal do Norte e do presidente legítimo, James Buchanan, qualquer medida dissuasora de fundo.

Os sulistas iniciaram então um esforço frenético, procurando obter um reconhecimento diplomático internacional - um esforço reconhecido prontamente por uma Inglaterra que necessitava do algodão sulista para as suas manufacturas têxteis como de pão para a boca e mais cautelosamente vigiado por outros países menos comprometidos em termo de matéria prima.

Quando, em 1861, Abraham Lincoln se tornou o 16º presidente dos Estados Unidos, o país estava dividido em duas metades desiguais - dos seus 32 milhões de habitantes, 22 milhões estavam no norte e 10 milhões, entre os quais 3 milhões de escravos, residiam no sul.

No seu discurso inaugural, de tomada de posse, Lincoln foi peremptório:

"In your hands, my dissatisfied fellow countrymen, and not in mine, is the momentous issue of civil war. The government will not assail you.... You have no oath registered in Heaven to destroy the government, while I shall have the most solemn one to preserve, protect and defend it."

Mas esta mensagem não foi escutada pelos do Sul. 

No dia 14 de Abril de 1861, tropas confederadas tomaram o Forte Sumter, dando inicio a uma guerra civil que opôs os estados Confederados do Sul aos estados Unionistas do Norte.

Durante 4 anos, até 1865, os dois exércitos travariam inúmeras batalhas, com vitórias e derrotas para ambos os lados, num longo conflito que seria classificado mais tarde como a maior guerra civil da história. Pela primeira vez, as câmaras fotográficas davam-nos toda a dimensão da tragédia.

No âmbito puramente militar, a Guerra da Secessão inaugurou o uso de armas terríveis, percursoras dos horrores que estariam para vir - navios couraçados, submarinos, canhões estriados, a guerra aérea e, entre outros mais engenhos infernais, as minas navais de detonação eléctrica, de que falaremos a propósito mais adiante.

Os Confederados, muito mais fracos em recursos, tinham como estratégia principal a de obter vitórias desmoralizantes no terreno inimigo e resistir no seu próprio até que o Norte desistisse de uma guerra crescentemente custosa e inútil.

O Norte, por sua vez, sabia da exiguidade dos recursos do Sul, mormente da sua dependência quase total da venda do algodão à Inglaterra.

Para se opor a essa fonte de receitas, o Norte estrangulou o abastecimento de alimentos do Sul e as exportações dos seus produtos, impondo um bloqueio naval a todos os portos sulistas - enquanto o Norte vendia trigo para todo o mundo, o Sul não conseguia vender seu algodão para ninguém.

Como resposta, o Sul armou embarcações corsárias para afundar os navios mercantes nortistas - dos quais o mais célebre foi o Alabama, tripulado nas águas da ilha Terceira - e iniciou um plano ambicioso, em conjunto com os estaleiros navais ingleses, de construção de navios super rápidos que apenas tinham um único objectivo: furar o bloqueio do Norte.

E foi isso que aprendemos, naquele elevador do Texas. Num congresso de arqueologia subaquática, calhámos em dar de caras com um dos maiores especialistas em história naval confederada, Kevin Foster, o director do Programa do Património Náutico do National Park Service.

Encerrados num elevador, fizemos a chamada conversa de circunstância dos elevadores e espaços confinados afins: ele perguntou-nos de onde vínhamos, nós dissemos Açores, ele retorquiu, curioso, dos Açores só sei que existem lá 2 navios sulistas afundados, nós, como se chamam, e ele responde, um deles é o Run'her.

Bingo!

Mistério resolvido - era o Run'her ("tentem apanhar-me") e não Runher como estava grafado no jornal! 

A partir daí, foi fácil.

No âmbito do programa Confederado de construção de navios especificamente destinados a furar o bloqueio, foi lançado à água, a 3 de Março de 1863, o The Southerner.

Este navio, com cerca de 90 metros de comprimento e 300 cavalos de potência, apresentava pela primeira vez na história da construção naval mercante uma caldeira com superaquecimento de vapor e um casco reforçado com blindagem - com 18 nós de velocidade de ponta, viria a dar o mote para aquilo que seria a construção naval em 1864.

Nesse ano, saía dos estaleiros de Spence Pile, West Hartlepool, o vapor de pás Whisper, com 80 metros de comprimento e uma velocidade de 14 nós.

Partindo de Falmouth a 16 de Novembro de 1864, o Whisper fazia parte de uma frota de quatro furadores de bloqueio que carregavam quase exclusivamente equipamento destinado à construção de minas navais de detonação eléctrica. Destes quatro, o Whisper foi o único que conseguiu furar o bloqueio, após ter escalado Angra a 26 de Novembro de 1864. Dois foram apresados e o último, o Run'Her, era o que tinha naufragado na baía de Angra do Heroísmo.

E porquê o segredo, na época, sobre o Run'Her?

Durante os últimos anos da guerra civil, os navios que furavam o bloqueio eram, geralmente, propriedade do governo Confederado. Essa propriedade era, no entanto, camuflada de modo a evitar que os navios fossem classificados como embarcações sob pavilhão nacional, o que os poderia levar a terem que aderir às regras estritas de neutralidade exigidas para navios de guerra e de transporte.

Sofrendo de uma falta crónica de crédito estrangeiro, o governo Confederado viu-se obrigado a estabelecer contratos de aquisição de navios junto de seis grandes construtores navais britânicos, fornecendo estes últimos navios equipados com maquinaria de alta tecnologia em troca de carregamentos de algodão. Só quando o número de fretes executados fosse suficiente para amortizar a dívida de construção receberia o governo Confederado o controlo completo do navio em causa.

Para melhor proteger os seus interesses navais, a Marinha Confederada destacava os seus melhores capitães para bordo dos furadores do bloqueio.

Pelas informações recolhidas no Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, descobrimosque uns dias após o naufrágio, tinham saído de Angra para Lisboa umas dezenas de passageiros com nomes anglo-saxónicos. Não havia registo de chegada, só de saída, logo só poderiam ser os passageiros e tripulantes do navio naufragado.

Um desses passageiros era o cidadão americano Hunter Davidson. Uma inquirição mais tarde e prontamente se descobriu que era a este "cidadão" que estava incumbida a tarefa de coadjuvar o capitão civil do Run'Her, Edwin Courtenay, na manobra do navio.

Hunter Davidson, nascido no estado da Virgínia em 1827, foi nomeado para o cargo de guarda-marinha a 29 de Dezembro de 1841, após ter concluído os seus estudos na United States Naval Academy de Annapolis, Maryland, naquele que foi o segundo curso naval a ser ministrado nesta instituição.

A sua carreira naval prosseguiu com a sua nomeação a tenente, no ano de 1855 e terminou cinco anos mais tarde quando Hunter apresentou a sua demissão, pouco antes de se juntar à população rebelde do seu estado natal. É ainda durante o decorrer do primeiro ano do conflito armado que Davidson é nomeado para o posto de 1º tenente da Marinha Confederada, em Junho de 1861.

Durante a guerra veio a ocupar vários cargos, quer embarcado, quer em terra, distinguindo-se pelo papel que desempenhou aquando da primeira escaramuça havida entre dois navios couraçados, o CSS Virginia e o USS Monitor.

Após o fim da sua comissão de serviço a bordo do CSS Virginia, Davidson dedicou-se de corpo e alma à idealização de minas submarinas, tendo sido assistente de Matthew Fontaine Maury, brilhante cientista naval. Quando este foi destacado para serviço de investigação na Europa, Davidson tomou a peito as tarefas de melhoramento, construção e posicionamento de minas navais no interior do leito do rio James, no âmbito do plano de defesa da capital sulista, Richmond, tendo os seus esforços sido amplamente recompensados com o afundamento de vários navios nortistas. Davidson foi também o responsável pela formação do Naval Submarine Battery Service, serviço este que respondeu pelo abate de algumas dezenas de embarcações da União.

Depois da guerra, Davidson nunca chegou a regressar aos Estados Unidos. Serviu como oficial de marinha em diversas forças navais da América do Sul e chegou mesmo a combater na Guerra da Tripla Aliança contra o Paraguai. Davidson serviu também como consultor tecnológico no fabrico de minas navais e torpedeiros até à sua morte, em 1913, no Paraguai.

Infelizmente, deste naufrágio poucos documentos se encontram, para já, acessíveis.

As informações relativas ao processo de arrematação ou referentes ao possível transbordo da carga militar para outras embarcações da Confederação não se encontram no Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo.

Mesmo os seus vestígios são parcos.

Uma caldeira, centenas de chapas do casco, uma placa de chumbo aqui e ali: pouco resta hoje em dia das armas secretas dos Confederados.